Queda da taxa
básica começa a estimular consultas e simulações, mas condições de
financiamento seguem dependentes do perfil do consumidor, custo de captação e
risco das operações
A
redução da taxa Selic para 13,75% ao ano começa a mudar, ainda que de forma
gradual, o comportamento de consumidores interessados na compra de veículos. No
Grupo Saga, uma das maiores redes de concessionárias do país, o movimento já
aparece no aumento das consultas e das simulações de financiamento,
especialmente entre clientes que buscam operações com entradas menores.
O
cenário, porém, ainda é marcado pela cautela, já que a queda da taxa básica não
é repassada de forma imediata ou uniforme para as taxas cobradas nos
financiamentos. As taxas oferecidas ao consumidor dependem de outros fatores,
como o custo de captação das instituições financeiras, o perfil de crédito, o
valor da entrada, o prazo e o risco de cada operação.
“A
queda da Selic gera uma expectativa positiva para o consumidor, mas não
significa uma redução automática e imediata nas taxas de financiamento. O
cliente continua analisando muito o valor da parcela, comparando instituições e
buscando condições que estejam de acordo com o seu orçamento. Nesse cenário, as
campanhas com taxas subsidiadas têm papel importante porque conseguem tornar
determinadas operações mais atrativas mesmo em um ambiente de juros ainda
elevados”, explica Larissa Buono, gerente de F&I (Finance and Insurance,
ou Financiamentos e Seguros) do Grupo Saga.
O
comportamento observado nas concessionárias reflete um consumidor mais
criterioso na hora de assumir uma dívida de longo prazo. Segundo o executivo,
além de comparar taxas entre instituições, os clientes têm buscado ajustar o
valor da entrada e do financiamento à capacidade de pagamento.
“Hoje,
a decisão de compra passa muito pela parcela. O consumidor quer entender quanto
vai pagar por mês, qual será o valor total da operação e quais condições
consegue obter. Por isso, percebemos um aumento nas simulações, mas a conversão
acontece de maneira mais gradual. O cliente pesquisa mais antes de tomar a
decisão”, afirma.
Na
avaliação de Larissa, por isso, uma eventual continuidade do ciclo de redução
da Selic tende a produzir efeitos progressivos no mercado. Antes de uma
expansão mais significativa das vendas, a expectativa é de aumento das
consultas e simulações, seguido por uma melhora nas aprovações e na conversão
das negociações, caso as condições de crédito também avancem.
Financiamento lidera, mas consórcio ganha espaço
Apesar
do cenário de juros elevados, o financiamento continua sendo a principal
modalidade utilizada pelos clientes do Grupo Saga para a aquisição de veículos.
As campanhas promovidas pelos bancos de montadora, com taxas subsidiadas,
prazos mais flexíveis e condições específicas para determinados modelos, ajudam
a preservar a atratividade da modalidade.
Ao
mesmo tempo, o grupo observa maior interesse pelo consórcio, especialmente
entre consumidores que não têm urgência para retirar o veículo e preferem uma
estratégia de aquisição mais planejada.
“O
financiamento continua sendo o principal caminho para quem quer comprar o
veículo e sair da concessionária com ele de forma imediata. Mas o consórcio
ganhou espaço porque permite ao consumidor pensar a aquisição de outra maneira.
Com os juros ainda altos, ele passa a comparar não apenas diferentes
financiamentos, mas também modalidades de compra”, explica a gerente de F&I.
Pequenas diferenças que pesam a longo prazo
A
influência dos juros fica mais evidente quando considerada ao longo de todo o
contrato. Em uma simulação apresentada pelo Grupo Saga, um financiamento de R$
100 mil em 72 meses, por exemplo, teria uma parcela aproximada de R$ 2.590 com
taxa de 1,80% ao mês. Com a taxa reduzida para 1,70% ao mês, a parcela cairia
para cerca de R$ 2.500.
A
diferença de aproximadamente R$ 90 por mês representa cerca de R$ 6,5 mil ao
longo das 72 parcelas, considerando a manutenção do contrato até o final. Caso
o consumidor antecipe pagamentos ou quite a operação antes do prazo, a economia
pode ser maior pela redução dos juros futuros.
“Uma
diferença de poucos décimos na taxa mensal pode parecer pequena quando o
consumidor olha apenas para a parcela. Mas, em um contrato longo, esse valor se
acumula e tem impacto relevante no custo total. Por isso, comparar as condições
de financiamento é tão importante quanto negociar o preço do veículo”, ressalta
Larissa.
0 km entra na comparação com seminovos
Outro
movimento observado pelo Grupo Saga é a avaliação mais criteriosa entre
veículos novos e seminovos. De acordo com Larissa Buono, parte dos consumidores
que inicialmente consideraria um seminovo também passou a analisar modelos 0
km, principalmente quando há condições especiais de financiamento. “Nesse
cálculo, entram não apenas o preço de aquisição, mas fatores como garantia de
fábrica, tecnologia, consumo de combustível, custos de manutenção e a
possibilidade de aquisição de veículos elétricos, que também aparecem entre as
alternativas avaliadas pelos consumidores”, afirma a gerente.
Para
o início de 2027, a perspectiva do Grupo Saga é de uma retomada gradual caso a
trajetória de redução da Selic prossiga e seja acompanhada por uma melhora nos
indicadores de inadimplência. A avaliação de Larissa é de que juros menores
podem contribuir para reduzir o custo das parcelas e ampliar o acesso ao
crédito, mas a recuperação mais consistente dependerá também das condições de
aprovação das instituições financeiras.
“Nesse
cenário, podemos caminhar para uma perspectiva de maior acesso ao crédito. A
tendência é que o mercado responda primeiro com mais procura e simulações e,
posteriormente, com maior aprovação e conversão em vendas. Por isso, enxergamos
uma retomada gradual, e não uma mudança imediata de comportamento”, conclui.


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