"Pobres Criaturas" e as Políticas do Corpo

 

Marco Antonio Spinelli*

Acho que a crítica mais devastadora que eu vi ou ouvi a respeito de “Pobres Criaturas” veio de minha mulher, na saída do cinema: enquanto eu dizia, mexido com o filme, que aquilo era uma espécie de “Odisseia”, versão feminina, Teca me falou que o filme era condescendente com as mulheres na exata medida em que parece fazer uma fábula feminista de libertação. Ela não se sentiu representada pela personagem principal, Bella Baxter. Vejo a crítica especializada se debulhando em elogios ao filme de quase duas horas e meia que tem fabulosos atores, desempenhos e beleza plástica. O livro que deu origem ao mesmo, o roteirista e o diretor são todos homens. Vou tentar responder a essa crítica, não sei se terei sucesso.

“Pobres Criaturas” é um filme belíssimo plasticamente, perturbador e perfeitamente desagradável em várias passagens. O diretor, com nome impronunciável, já fez outros filmes com essas características. Para quem não viu o filme, e acho que são muitos, vou fazer um resumo com um mínimo de spoilers, espero: um cientista/Frankenstein, Godwin Baxter, que coloca cabeça de cachorros em galinhas e faz experiências com órgãos humanos, resgata uma moça que havia se suicidado. Descobre que ela estava grávida, pega o Cérebro do bebê e coloca no corpo da moça que morreu. O primeiro ato do filme é bem marcado por esse fio condutor, de um bebê habitando o corpo de uma mulher adulta, com dificuldades de coordenação de movimentos e aquisição de linguagem, destruindo coisas e fazendo arte pelo castelo do cientista. Seu criador, que ela chama de pai, tem o rosto deformado e menciona várias vezes os experimentos sádicos que seu pai, também cientista, realizou em seu corpo. Seu nome é Godwin, e a menina/mulher o chama de God, um diminutivo e uma piada que, God (Deus em Inglês) representa essa divindade surgida no século dezenove:  o Deus da Razão, da lógica científica, que pretende subjugar e intervir na Natureza sem pesar as consequências dessa intervenção. Um Frankenstein criado por um pai sádico cria uma pobre criatura, uma espécie de Frankenstein feminino que tenta proteger e controlar. Lógico que Bella não vai se deixar controlar. Nessa parte do filme, a mulher/criança começa a descobrir a própria sexualidade, manipulando e masturbando seus genitais em todos os lugares. Seu pai tenta controlar seus impulsos chamando um assistente, Max, para se casar com Bella. Mas a menina foge com um advogado cafajeste, Duncan e, com ele, vai conhecer o mundo e seu corpo.

O Deus da Razão e da Ciência separou o Cérebro do seu corpo. Esse Cérebro sem corpo carece de humanidade e compaixão. O sono da Razão produz seus monstros, como diria um quadro de Goya. O filme fala desses monstros e uma vítima frequente é o corpo da mulher. Bella Baxter vai viver uma jornada como de Ulisses, na Odisseia, para voltar para seu lar, e tomar posse do seu corpo e de sua alma. O homem cafajeste que a leva ao mundo acaba se perdendo diante de sua liberdade e a posse de seu corpo, seja transando, seja devorando pastéis de Santa Clara em Lisboa, seja chorando ao ver a pobreza em Alexandria. Ela tudo experimenta, tudo sente, tudo percorre com seus sentidos e seu entendimento.

Bella está fugindo de vários homens que tentam subjugá-la, seja com cuidados, sexo, poder, até amor, e escolhe ficar com um homem que consegue respeitar sua jornada, suas experiências mas, acima de tudo, a posse de seu próprio desejo.

Concordo com a Teca: a mulher não precisa da autorização de ninguém para achar seu caminho, e a recuperação do próprio corpo é fetichizada e colada com uma ideia masculina de liberdade, que é dar para quem ela quiser. É claro que estou exagerando, para situar a crítica. Acho o filme muito legal, inclusive, por levantar essa e muitas questões, mais ou menos profundas. Bella Baxter faz um percurso longo de descoberta de si e de seu destino, num círculo perfeito até descobrir a causa do suicídio de sua mãe e vencer, mais uma vez, a opressão que ela não conseguira vencer.

Acho que Bella Baxter está buscando se salvar do domínio dos Frankensteins do nosso tempo, sobretudo, da intervenção cega no fluxo da vida desse mundo dominado por fantasias masculinas de controle. Não por acaso, ela termina o filme estudando Medicina. Tomara que seja para trazer a alma da cura de volta ao nosso mundo.

*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”


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