A pandemia do coronavírus colocou em xeque o então consagrado jargão popular “O olho do dono é que engorda o gado”. A expressão indica que somente o acompanhamento de perto e a atenção constante do chefe sustentam o sucesso de qualquer negócio. Essa “verdade”, contudo, vem sendo desacreditada por empresas nacionais e transnacionais. O artigo recentemente publicado pela Revista Exame sobre o trabalho remoto desenvolvido pela iFood, sob a liderança de Raphael Bozza, traz reflexões que podem servir ao setor imobiliário.
A empresa decidiu pelo modelo híbrido de trabalho, no qual o sucesso se mede pelo impacto, e não pela presença física. No meu entender, a mesma lógica pode também ser aplicada ao mercado imobiliário. Mesmo porque a corretagem já ostenta natureza autônoma e descentralizada. Nosso desafio, portanto, é a criação de mecanismos de gestão capazes de manter a produtividade e a cultura organizacional, mesmo sem o “olho do dono” sobre cada colaborador. A questão central é o controle de resultados, já que corretores ganham por desempenho.
Nesse contexto, o escritório imobiliário não deve ser espaço de domínio, mas sim de conexão, destinado a mentorias, treinamentos, trocas de experiências e construção de estratégias coletivas, deixando as tarefas individuais para o ambiente remoto. As ferramentas digitais de CRM, e reuniões periódicas podem substituir a supervisão presencial. O ideal é a criação de uma espécie de “algoritmo da confiança”, onde o corretor se sinta parte de um sistema que valorize sua autonomia, mas também acompanhe seus resultados de forma transparente.
A iFood criou um dispositivo apelidado de jet ski, que incentiva a inovação, deixando claro que pequenas falhas, ao invés de merecer censura, podem ser instrumentos de aprendizado. O mercado imobiliário, hoje em dia, é muito competitivo. A agilidade do corretor pode ser a diferença entre realizar ou perder um negócio. Ao gestor cabe criar ambiente cooperativo e seguro para novas experiências e compartilhamento de conhecimentos. Isso se traduz em liberdade para testagem de novas formas de prospecção, abordagem, angariação e venda.
A tecnologia também desenvolve papel crucial. No setor imobiliário, as ferramentas de automação podem cuidar de agendamentos, do envio de propostas, gestão de documentos e até da triagem de leads, permitindo que os atores do mercado foquem no relacionamento humano, que é o verdadeiro diferencial da profissão. A empresa que investir em plataformas inteligentes estará não apenas modernizando sua operação, mas também criando condições para que seus profissionais se concentrem naquilo que lhes é primordial: as relações pessoais.
Porém a cultura organizacional não pode ser negligenciada. Investir em espaços que reflitam dinamismo e inovação, ainda que não obrigatória a presença física, significa transformá-los em ambientes de inspiração. Essa perspectiva fortalece o vínculo emocional dos colaboradores com a empresa, mesmo em contexto de trabalho maleável. A nova modalidade sugere que flexibilidade, inovação e confiança podem transformar o conceito de gestão imobiliária, tornando-a mais adaptada e condizente com os preceitos atuais e o futuro do trabalho.
João Teodoro da Silva
Presidente – Sistema Cofeci-Creci



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