Seminário internacional “Cultura pra Quê?” consolida Sesc-DF como agente de transformação social

 Em meio a escombros que viram galeria de arte, encontro reúne especialistas do mundo inteiro para repensar o papel de museus e centros culturais

"Em obra", alerta o aviso inserido entre escombros que serviam de galeria de arte, com pinturas do mundo inteiro, no prédio onde funcionará o Sesc Cultural, na 511 Norte do Plano Piloto. No andar de cima, pensadores, pesquisadores, artistas da América Latina, África, Oriente Médio e Europa debatiam, a partir de palestras, mostras audiovisuais e intervenções artísticas, como museus e centros culturais, historicamente atrelados a estruturas coloniais, podem se reinventar. 

Esse é o cenário do Seminário Internacional “Cultura pra Quê? — Centros de arte, decolonialidade e futuros possíveis”, realizado pelo Sesc-DF de 22 a 25 de abril.

 Na abertura do evento, o presidente da Fecomércio-DF, José Aparecido Freire, destacou o papel da cultura como ferramenta de inclusão. “Não podemos pensar na cultura para dividir a sociedade. A sociedade merece cultura e lazer, que são ferramentas de transformação social, caminho para um futuro mais justo e plural”, discursou.

Aparecido ressaltou que o seminário representa um marco para a concepção do Sesc Cultural, e consolida a instituição como instrumento de transformação social. “Nosso público cultural cresceu 50% nos últimos quatro anos. Atendemos mais de 770 mil pessoas entre cultura, esporte e lazer só em 2025. Correspondemos a 70% de tudo o que se produz em evento cultural no Distrito Federal”, afirmou, comprovando que a cultura como direito sempre foi um dos pilares da instituição.

“Uma janela para o DF”

O diretor regional do Sesc-DF, Valcides Araújo, nascido e criado na Ceilândia — cidade que abriga a maior favela horizontal do Brasil —, definiu o seminário como “mais um passo importante na história cultural da nossa cidade e na trajetória do Sesc”. 

“Este Centro Cultural vai se estabelecer como uma janela de compartilhamento para o DF. Por essa janela, esperamos receber grandes nomes, protagonistas da cena cultural brasileira e internacional em todos os segmentos: literatura, música, teatro. Vamos criar oportunidade de acesso a este equipamento para as populações mais carentes que circundam o DF”, afirmou.

 Curador sênior do seminário, Manuel Borja-Ville trouxe uma reflexão abrangente sobre memória e pertencimento. “Assumir as memórias de todo o mundo é chave para compreender o legado do mundo em comum, não só de uma província da terra. Implica reconhecer que a dor de quem sofre violência sistêmica é de todos, e entender que esse ‘todos’ já não é exclusivo dos humanos”, disse.

Ao explicar o título do seminário — “Cultura pra Quê?” —, Borja-Villel lembrou que a proposta é também rebater o discurso de grupos reacionários para quem “cultura não serve pra nada”. Ele também citou o livro homônimo de Aracy Amaral, que questiona os marcos de referência pelos quais a história foi contada. “História, arte e cultura são inseparáveis. Cultivá-las é cuidar da vida, e vice-versa”, concluiu.

Debates e intervenções

Após a abertura do seminário "Cultura pra Quê?", foi realizada a mesa “Corpo, território e memórias”, com a educadora popular e feminista boliviana Adriana Guzmán, integrante da Comunidade Feminista Antipatriarcal e Feministas de Abya Yala, e Leda Maria Martins, poeta, ensaísta, dramaturga e professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais.

À tarde, foi realizada a mesa “À margem do mundo”, reunindo o historiador e pesquisador do Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana Claudio Alvaro Lincopi, membro da Comunidad de História Mapuche; a urbanista, arquiteta e professora da USP Raquel Rolnik; e a artista interdisciplinar e escritora Jota Mombaça. O dia será finalizado com intervenção artística de Paulo Nazareth.

Oficina

O Seminário Internacional “Cultura pra Quê? — Centros de arte, decolonialidade e futuros possíveis” teve início nessa quarta-feira (22/4), com uma oficina com o artista, contador de histórias, curador independente, teórico cultural e produtor de cinema de Guadalupe Olivier Marboeuf, que iniciou a pintura de painel de grandes proporções, elaborado a partir de criação coletiva, para imaginar futuros possíveis para a cidade. Essa será a primeira obra do artista em Brasília e a segunda no Brasil. A primeira, La Ronde des vies bonnes (A Roda das Boas Vidas) (2025), marcou a 36ª Bienal de São Paulo.   

Em sua prática artística, Marboeuf explora temas como imperialismo, servidão e as consequências da opressão racial. A abordagem busca revisitar o passado ao mesmo tempo em que apresenta novas formas de narrar e representar a história. 

 Programação completa do evento, que segue até sábado (25/4), disponível no link saibamais.sescdf.com.br/cultura-para-que

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