Palestrantes defendem que experiências de povos negros e indígenas já apontam caminhos para outros futuros possíveis e questionam a ideia de que é preciso “inventá-los” do zero. Debate marca encerramento do Seminário Internacional "Cultura pra Quê?"
A experiência da sociedade moderna é a de crise. Guerra, fome, exclusão social. Um cenário generalizado que impacta diretamente na projeção de futuro de praticamente todas as 8 bilhões de pessoas do mundo, muitas delas em busca de caminhos e estratégias para viver uma vida mais democrática, justa e solidária.
Diante do cenário imposto, esse projeto de futuro parece algo inatingível. Entretanto, esse tipo de futuro existe e já foi experimentado. A afirmação foi feita neste sábado (25/4), no último painel do Seminário Internacional “Cultura pra Quê?”, por Ailton Krenak, liderança indígena, sociólogo e uma das vozes mais importantes do pensamento contemporâneo, e Rosane Borges, pós-doutora em comunicação, professora da PUC e líder de raça e gênero, esse tipo de futuro existe e já foi experimentado.
“É preciso dar voz à colapsologia não no sentido do fim dos tempos, mas no sentido de que é o fim de um mundo, e não nos cabe pensar em outros mundos possíveis, porque esses mundos já existem. A gente só precisa validar esses mundos. O mundo dos negros, o mundo dos indígenas”, explica Rosane Borges.
Segundo ela, se esses mundos já existem, “significa dizer que há uma outra temporalidade a se pensar”. “Esse futuro também está no passado, e a gente reelabora esse passado”, diz ao refletir sobre a necessidade de reatualizar táticas de sobrevivência historicamente praticadas pelos povos negros e indígenas.
Para Rosane Borges, a cultura e a estética são fundamentais nesse processo de reelaboração do passado, “pois expandem os horizontes da política”. “Nas manifestações do Chile, em 2019, tinha um sentimento difuso que se manifestava com execução de violino, com bailarinas”, exemplifica. Entretanto, a PhD alerta que a arte não será sempre emanciparoda. “Ela (a arte) transforma quando a gente pensa politicamente em nome do que se tece esse manto do mundo.”
Para Ailton Krenak, que faz um crítica profunda ao modelo de vida contemporâneo e à exploração predatória da natureza, a ideia de um futuro foi “sequestrada pelo capitalismo”. “Ele (o capitalismo) fica ‘bulinando’ a gente com a ideia de que o futuro é logo ali. Parece até propaganda de banco”. Segundo ele, essa promessa chega a ser um “atentado contra a nossa sanidade”. “É claro que isso é um jogo de dados. A máquina do capitalismo tem uma assertividade admirável. Quando não dá certo, eles fazem guerra. E se não der certo mesmo, eles colocam fogo em tudo. Como vamos imaginar futuros possíveis em um jogo fechado desse?”, questiona.
Krenak alerta que é preciso “ouvir a Terra”, como sempre fizeram os povos ribeirinhos, quilombolas, indígenas. “Se a gente não for capaz de entender o que a Terra quer, nós vamos ser percebidos por esse organismo inteligente e que tem agência como um vírus. E o que um corpo saudável faz com um vírus? Joga fora!”, afirma.
Ao reunir diferentes perspectivas, o último painel do seminário internacional “Cultura pra Quê” mostra que a construção de futuros mais justos não parte do zero, mas do reconhecimento de experiências já existentes. O desafio, segundo os palestrantes, não é pensar estratégias para um futuro, mas reconhecer que ele está no passado, nas práticas e saberes milenares de comunidades e povos historicamente silenciados.



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