Dados de pesquisas brasileiras mostram que a maioria das pessoas abandona o exercício nos primeiros meses. Especialistas apontam que o problema está na ausência de progressão planejada, não na força de vontade de quem treina.
A maior parte das pessoas que começam a treinar no Brasil não chega ao fim do primeiro ano. Um acompanhamento de uma década conduzido por pesquisadores da Fiocruz, do Instituto de Cardiologia Aloysio de Castro e da Universidade de Sydney identificou que apenas 3,7% dos alunos de uma academia do Rio de Janeiro mantiveram a rotina por mais de doze meses. O número contraria a explicação mais popular para o abandono — falta de disciplina — e aponta para uma causa estrutural: a ausência de progressão planejada.
O tamanho do problema
A Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, edição de 2019, classificou 40,3% dos adultos brasileiros como sedentários. Entre as mulheres com 18 anos ou mais, 26,4% praticavam o nível recomendado de atividade física no lazer, contra 34,2% dos homens. Levantamentos do setor de academias estimam que cerca de 70% dos matriculados param até o terceiro mês. O gargalo não está na adesão. Está na permanência.
Por que a pessoa recomeça em vez de continuar?
Três padrões se repetem entre quem trava no ciclo de recomeço.
O treino improvisado. Exercícios soltos, salvos em redes sociais, sem sequência lógica entre mobilidade, multiarticulares e isolados. O esforço existe, mas não se acumula.
A troca constante de programa. A cada poucas semanas, um método substitui o anterior. Como a adaptação do corpo leva tempo, a troca precoce impede que o resultado apareça.
O tudo ou nada. Só vale treinar se for uma hora completa. Nos dias curtos, não treina — e a semana inteira zera.
"O corpo precisa de tempo", afirma Flávia Cristófaro, educadora física formada pela USP e ex-atleta da seleção brasileira de ginástica aeróbica. "É como plantar uma semente e arrancar depois de três dias para plantar outra. Não é que a pessoa tentou pouco. Ela tentou demais, e nunca no mesmo lugar."
O que o alto rendimento faz de diferente
Atletas profissionais não escolhem o próprio treino todo dia. Existe um planejamento que define o que será feito, em que ordem e com qual progressão ao longo de meses.
"Na seleção, eu nunca precisei decidir o que treinar. O sistema decidia", diz Flávia, seis vezes campeã brasileira e vice-campeã mundial na modalidade. "As mulheres que eu acompanho falhavam porque faziam sozinhas o que nenhuma atleta faz sozinha: decidir tudo, todo dia. Não era para treinar mais. Era para treinar, certo."
Segundo ela, a progressão transforma repetição em construção: "Você repete o mesmo treino, mas ele não é mais o mesmo. A evolução acontece dentro da repetição, não na troca de programa."
Como reduzir a chance de abandono
Definir o ponto de partida. Medir a composição corporal no início permite comparar a evolução com dados, não com impressão. Protocolos de fita métrica, como o usado pela Marinha dos Estados Unidos, dão uma estimativa acessível do percentual de gordura.
Começar com frequência moderada. Três a quatro sessões por semana sustentam melhor a constância do que treinar todos os dias no primeiro mês.
Ter uma versão curta do treino. Sessões de 15 a 20 minutos nos dias difíceis evitam que a semana zere.
Manter o programa por tempo suficiente. Trocar de método antes de fechar um ciclo impede a adaptação que produz resultado.
A abordagem por sistema também aparece em plataformas digitais de treino. O Elah App, criado por Flávia Cristófaro, organiza os treinos em um cronograma anual com progressão mês a mês e inclui programas de sessão curta, mobilidade e recuperação pós-parto, além de uma ferramenta de autoavaliação. A lógica é a do planejamento esportivo: retirar da usuária a decisão diária sobre o que treinar.
Sobre a fonte
Flávia Cristófaro é educadora física formada pela USP e ex-atleta da seleção brasileira de ginástica aeróbica, seis vezes campeã brasileira e vice-campeã mundial. Treina mulheres há mais de dez anos e é criadora do Elah App, aplicativo brasileiro de treino feminino disponível em www.elah-app.com.
Crédito: Divulgação



.png)